- O editorial constitui um gênero textual de natureza dissertativa. Distingue-se do artigo de opinião por representar o ponto de vista de um jornal ou uma revista, por exemplo. Apresenta-se na variante culta e não admite o uso da 1a. pessoa nem da interlocução.
- Para ilustrar, posto abaixo o editorial da edição de hoje da Folha de São Paulo comentando o caso do pastor norte-americano que provocou confusão ao declarar seu desejo de queimar um exemplar do Alcorão no aniversário do ataque às Torres Gêmeas ocorrido em 2001.
- 15 minutos de fama
A data escolhida marca o nono aniversário dos sangrentos ataques desfechados contra o World Trade Center, em Nova York, e outros alvos nos EUA por fundamentalistas islâmicos ligados à rede extremista Al Qaeda.
Sem separar o joio do trigo, Jones decidiu agredir os sentimentos de toda a comunidade muçulmana, com mais de 1 bilhão de pessoas, afixando à porta da sua igreja um cartaz com os dizeres "o islã é do Diabo". Foi o início de uma escalada que levou à decisão de queimar o livro sagrado da religião maometana.
Dada a importância diminuta do personagem -a igreja de Jones tem apenas 50 fiéis- era de esperar que a iniciativa passasse despercebida. Mas os planos do pastor americano chegaram ao conhecimento de muçulmanos no Afeganistão, palco de ofensiva militar dos EUA.
Os protestos que começaram a ocorrer no país centroasiático -e que já custaram ao menos uma vida- levaram o chefe das tropas americanas no país, general David Petraeus, a alertar para um potencial risco a seus soldados caso Jones levasse adiante o plano. O próprio presidente Barack Obama se viu forçado a comentar o caso e disse que a empreitada do pastor favoreceria uma onda de recrutamento para a Al Qaeda.
Depois de todos os apelos, Jones recuou anteontem de seus planos após suposto compromisso -a seguir negado- de que a comunidade muçulmana desistiria da intenção de construir uma mesquita nas proximidades do Marco Zero, palco dos principais atentados de 11 de setembro de 2001.
A liberdade de expressão, valor fundamental da Constituição dos EUA e das verdadeiras democracias, dá ao pastor o direito de denunciar o Alcorão ou mesmo de queimá-lo. Mas o que é legítimo nem sempre é recomendável. A memória do 11 de Setembro e suas duradouras consequências, como a própria guerra no Afeganistão, não precisam ser inflamadas por atitudes literalmente incendiárias de um pastor obscuro em busca de seus 15 minutos de fama.
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